Resposta ao “será que os americanos vão aprender…”
Adorei o comentário do meu amigo Wagão no artigo "Será que os americanos vão aprender com a crise". Devido ao ótimo conteúdo e elaboração do comentário, achei que ele merecia maior destaque e tomei a liberdade de publicá-lo como post próprio. No final, seguem meus comentários.
Não concordo muito com este artigo. Tenho algumas considerações a serem feitas.
O crédito não é algo ruim, muito pelo contrário. O mercado de crédito é muito importante para a economia. Basicamente o crédito é uma forma justa de financiar projetos de risco remunerando os investidores por isso.
Por exemplo, uma pessoa que deseja adquirir um imóvel toma o crédito para realizar um projeto. Quem empresta é remunerado pelo risco da pessoa não pagar, morrer, entre outras coisas. No mundo corporativo isso funciona de maneira mais generalizada. Nenhuma empresa global se tornou assim sem crédito. Em algum momento elas precisaram se alavancar para financiar o crescimento.
Após a segunda guerra, devido ao tratado de Bretton Woods o mundo passou a poder viver alavancado, isso gerou uma prosperidade nunca antes vista. Fora alguns solavancos a economia foi muito bem. O liberalismo econômico cada vez mais é demonstrado como a melhor escolha racional (isso é polêmico, pode ser questão de outro post). Porém esta crise que vivemos não é uma questão de ganância desenfreada, ou então um problema do liberalismo econômico, per se. Este problema ocorre pois os mecanismos de mercado se mostraram ineficientes em mensurar um tipo de risco de um produto de risco novo (os famosos derivativos de crédito, objeto da crise do subprime). Esta crise que estamos vivendo é um dos ajustes do capitalismo, em qualquer outro regime teríamos ajustes semelhantes.
Devido estes argumentos não considero justa a demonização do crédito. Afinal, devemos, sempre, considerar que as pessoas sabem escolher o que é melhor para si mesmas. Ou seja, um cidadão que compra um armário no crediário, por mais que pague taxas surreais, ele tomou a melhor decisão para ele mesmo. (Aqui também é um ponto polêmico, onde poderemos discutir sobre a formação, informação, etc.) Mas no fundo, o crédito é o melhor veículo de inclusão social, já que as pessoas hoje possuem acesso a veículos, imóveis e bens que não possuiam a 20 anos.
A segunda parte é que este pacote não é para “aliviar” os bancos para eles voltarem a aquecer a economia. O Lehman Brothers é um exemplo de que o FED não possui intenções de salvar nenhuma instituição em particular. O que o FED está tentando fazer é com que o sistema bancário não quebre, o que causaria um efeito como o da crise de 1929. Na verdade este plano é para aumentar a liquidez do mercado e não causar a quebradeira geral. Bom, essa parte é um pouco mais complexa de ser entendida, mas em linhas gerais o estouro da bolhas dos subprimes fez com que os derivativos de crédito perdessem a liquidez, isto é, apesar deles valerem algo, pois muitas vezes possuem garantias reais (como casas) ou serem securitizados (daí a importância da operação de salvamento da AIG), ninguém mais quer comprá-los. Então, os bancos que possuiam grande exposição não conseguem transformar estes títulos em dinheiro. O pacote servirá justamente para garantir esta liquidez no mercado.
Acho, inclusive, que o título dele embute um pouco do revanchismo e também da mentalidade de que os ricos ficam ricos à custas dos outros. Não, ao meu ver os Estados Unidos não são ricos por estraçalharem os pobre. (Terceiro ponto de polêmica)
De resto, continuamos nossa discussão aqui!

outubro 6th, 2008 - 21:34
Em primeiro lugar, eu também acho que o crédito seja algo benéfico e que a existência dos juros seja totalmente justa. Afinal, o risco tem o seu preço. E se o banco tem o dinheiro que as pessoas querem, nada mais justo do que transformá-lo em um produto (com o seu devido preço).
O que me incomodou em toda essa crise é algo que eu já não concordava. Os bancos descobriram no empréstimo uma forma muito fácil de ganhar dinheiro e empurram esse produto de todas as maneiras possíveis.
Antigamente, mas não tão antigamente assim, as pessoas colocavam terno para irem pedir dinheiro ao gerente do banco. Precisavam demonstrar confiança, provar que fariam bom uso do dinheiro e que pagariam ele de volta.
Hoje em dia, jovens de cores vibrantes ficam te oferecendo o dinheiro na rua. O crédito se tornou um produto empurrado, os bancos praticamente te forçam a pegar o empréstimo. Um grande exemplo é o cheque especial. Você vai tirar um saldo no banco e tem lá um valor absurdo disponível. Algumas pessoas não entendem que aquele dinheiro é um financiamento e que, apesar dos 10 dias sem juros, os juros serão cobrados um dia.
Talvez o problema seja exatamente a educação. Sinceramente, não sei quais taxas que o banco me cobram que são justas. Brigaram para padronizá-las, ficando mais claro para o cliente, mas logo os bancos descobriram brechas e formas de cobras novas taxas. Educação é o problema? Claro, mas o bancos sempre serão mais inteligentes. Eles sabem todas as regras do jogo, enquanto nós achamos que sabemos jogar.
Sobre o livre comércio, vou aproveitar o comentário do Papa: “o dinheiro não existe”. Essa crise só mostrou para todo mundo que a economia foi estruturada sobre uma base etérea. Vamos precisar de uma reestruturação? Com certeza. Mas não acredito que a ganância dos banqueiros, que aprenderam a ganhar dinheiro fácil, vai mudar tão rapidamente.
Acho que seria melhor voltar ao tempo em que usava-se terno para pedir empréstimo. O mercado não precisa de tanta liquidez. Se é o dinheiro que governa o mundo, precisamos de uma base mais sólida, em que todos possam confiar.
Antes de terminar, Wagão, adorei o seu comentário e espero que não se importe por eu tê-lo publicado. Gostaria de voltar a discutir contigo os pontos que você deixou em aberto. Uma das funções do blog é ser um espaço de discussão. Sinta-se convidado a continuar debatendo.